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Por que o Brasil desconhece o Festival Folclórico de Parintins?

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De hoje, 30 de junho, até domingo acontece o 52º Festival Folclórico de Parintins. A disputa de três noites entre os dois principais bois (Garantido e Caprichoso) da ilha parintintin/tupinambaran, é o maior festival que celebra as mitologias e histórias indígenas do país.

Quando criança, me lembro de ouvir isso durante as transmissões na televisão e morrer de orgulho. Era o meu estado, minha cultura, meu boizinho! O Brasil e o mundo estavam vendo o auto do boi bumbá e a história de vários cabocos, ribeirinhos e indígenas na arena.

(Reprodução / Site: Cultura Amazônica)

(Nessa época, diga-se de passagem, o maior sonho da minha vida era ser cunhã-poranga — a figura da mulher indígena guerreira, e a mais bonita — do meu boi favorito. Eu aprendia as toadas e as coreografias e tinha certeza de que um dia eu estaria dançando no bumbódromo pra todo mundo ver.)

Porém, à medida que fui crescendo e conhecendo o país além da minha cidade e estado, notei que as pessoas não davam a mesma importância que eu para o Festival. Elas sequer o conheciam! Ou, se conheciam, era só uma ideia bem vaga do que aquilo representava. Ah, o boi Garantido, aquele da música com a Fafá de Belém, né? E tinha aquela música “bate forte o tambor”, dos anos 90 também… Quase sempre o tom era de deboche ou de quem esperaria que eu me envergonhasse dessas referências.

No começo, eu não entendia como as pessoas podiam simplesmente não saber. Vocês não veem televisão, não? Só mais tarde descobri que as transmissões na íntegra das emissoras de TV eram algo que só aconteciam localmente. Durante uma época, até aconteceu nacionalmente, mas não sei quanto tempo isso durou. Por algum tempo, isso se resumiu a um “melhores momentos” de cada noite, que obviamente não fazem jus à grandiosidade daquilo.

Quando estive em Parintins e vi toda aquela estrutura ao vivo, no meio da galera, só conseguia pensar “Como as pessoas estão perdendo essa coisa tão linda?”

Na internet, numa rápida pesquisa no Google, é possível ver que os portais hegemônicos nada noticiam também quando chega essa época do ano. No Google em inglês ainda dá pra achar reportagens/dossiês anualmente, e até quando fui pra Parintins tive essa sensação de que os gringos conhecem e gostam mais do Festival do que os brasileiros.

Nessas horas, eu fico me perguntando: será que as pessoas não conhecem mais sobre essa festa tradicional por causa do silêncio da mídia, ou esses canais não falam sobre o Festival porque as pessoas não ligam?

Só recentemente vim perceber como o Festival está intimamente ligado à autoestima amazonense. Embora a festa esteja longe de ser perfeita, na arena, nas vozes dos levantadores das toadas, de alguma forma estão representadas as nossas raízes, o nosso povo, o nosso sotaque e nossos tambores, a nossa cor, o nosso dois-pra-lá-dois-pra-cá, e a nossa relação com a nossa casa, a Amazônia. As toadas lançadas a cada ano são uma aula de história sobre as diversas nações indígenas, compilações melhores do que qualquer livro — perpetuando a nossa prática da história oral.

Tenho a impressão de que o desinteresse geral é em divulgar algo amazônida e que seja tão entrelaçado com a cultura e orgulho indígena. Algo com o qual as pessoas de outras partes do país (especialmente as branquitudes sulistas e sudestinas) não conseguem se conectar — afinal, qual o motivo para ter orgulho disso?

Mal sabem eles que a nossa festa de rua tomou proporções tão gigantes que o carnaval do Rio de Janeiro não seria o mesmo sem o nosso Festival de Folclórico de Parintins.

O Boi Garantido no meio da galera encarnada (Arquivo Pessoal/2015)
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