puranga pesika

greta thunberg e a traição da branquitude

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alianças sem mudança de protagonismo são possíveis.

mesmo sendo torturada durante sua prisão, não foi essa experiência individual destacada pela sueca.

ao desembarcar em Atenas no dia 06/10, junto de quase duas centenas de ativistas da flotilha Global Sumud, greta fez questão de voltar a atenção para o que está acontecendo em Gaza. sabendo que os microfones e câmeras estariam voltados a ela.

não é apenas o fato de dispor o seu corpo branco em favor de uma pauta urgente que caracteriza sua traição à branquitude. é a atitude de não colocar sua dor pessoal no centro das atenções.

corpos de pessoas não-brancas, especialmente as árabes, nesse caso, são corpos “descartáveis”. a naturalização da violência, em Gaza, no Brasil ou nos Estados Unidos, contra corpos não-brancos tem um papel dessensibilizador, a ponto de muitos não se comoverem com o curso de mortes em massa.

quando uma mulher jovem, branca e europeia coloca seu corpo em risco, sem mudar o foco da mensagem de aliança a um grupo subalternizado, o regime de superioridade mantido pela masculinidade branca e eurocentrada entra em curto circuito. ela deveria ser frágil e portanto merecedora de salvação e cuidado, mas carrega uma mensagem perigosa.

lembre-se que é a segunda vez em um ano que greta faz parte de uma iniciativa desse porte. é possível que a tortura que tenha sofrido na tentativa mais recente seja uma retaliação tanto pelo Madleen, quanto pelo Global Sumud.

insistir em furar o bloqueio dos colonizadores não é algo que se faça só.

(veja outros membros da flotilha aqui.)

uma pessoa só pode ser mártir, não muda estruturas: há outras pessoas brancas e não-brancas envolvidas cujas participações não podem ser esquecidas. mas a presença dela em ambos trouxe atenção midiática. não porque estivessem preocupados com o sucesso da missão, mas porque havia uma preocupação com o seu corpo: feminino, branco, jovem, europeu.

um corpo que ganhou destaque excepcional aos 15 anos, por protestar sozinha, em uma sociedade onde uma juventude específica e o individualismo são supervalorizados.

um corpo cuja morte possui mais impacto midiático do que a morte de indígenas, negros, palestinos, pessoas do sul global.

e, sabendo disso, greta traiu o pacto da branquitude. usou sua presença como instrumento e seu corpo como escudo.

para nos lembrar que existe, sim, solidariedade e alianças possíveis.

esse texto foi publicado primeiro na newsletter "palavra é corpo". para leituras sem intermédio algoritmos:

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