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Um passo antes do pardo: entendendo o caboclo amazônico

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Falar sobre o “caboclo”, presente na realidade nortista, é desenrolar um fio tecido pela colonização.

Amazônidas estudando e pesquisando peças arqueológicas da sua terra (Maurício Souza/Instituto Mamirauá)

Popularmente, quem é o caboclo?

Antes de mais nada, vamos esclarecer que aqui vou falar exclusivamente do caboclo amazônico. Faço essa distinção porque, em outras partes do país, o termo pode ser usado para descrever grupos rurais que são social e culturalmente diferentes dessa população.¹ Também não falarei de nada ligado à espiritualidades.

O caboclo é apenas um fio de uma discussão sobre racialidade, ancestralidade, etnicidade e identidade.

Para amazônidas, a definição de caboclo é difusa. Debaixo desse termo cabem diversas características, plurais e até divergentes entre si, que incapacitam a formação de uma identidade coletiva. Nós amazônidas só sabemos, involuntariamente, que não queremos ser descritos como tal.

Existe um acordo silencioso de que o caboclo é sempre quem está em uma posição inferior a um interlocutor — estrangeiro, sudestino, branco, de uma classe social distinta, que enxerga e explora as riquezas dessa floresta conhecida como “inferno verde”. O interlocutor pode ter todas essas características de uma vez ou apenas algumas delas. Assim, em relação aos brancos sudestinos, caboclo pode ser a pessoa natural da Amazônia que não é branca. Em relação a quem mora nos bairros centrais da capital, caboclo é quem está nas periferias. Em relação a quem está em cidades mais desenvolvidas que não a capital, é quem está no interior, e assim por diante.

Como as pessoas não costumam se autodenominar caboclas, o termo se mostra como uma categoria relacional e também um indicador de classe.

Dentro das várias maneiras de empregar a palavra, é seguro dizer que quase nunca se trata de um elogio ou possui conotação positiva. Com a nossa herança colonial, aprendemos que xingar de cabôco significa chamar de pobre, de não-habituado à cidade ou não pertencente ali. Significa chamar de preguiçoso e sem-ambição.

(Alguma semelhança com estereótipos de uma outra categoria étnico-racial?)

O cabôco faz caboquice, que é um comportamento para se envergonhar. Escutamos/falamos corriqueiramente que alguém “fez caboquice” ou deveria “largar de fazer caboquice”.

Origens e usos do caboclo

A origem e significado primário da palavra são incertos, mas os que teorizaram chegaram a alguns pontos em comum. Um deles é de que a nomenclatura se trata de pessoa associada à floresta, indígena.

Câmara Cascudo (1954) considera a palavra como vinda do tupi, onde caá = mato, monte, selva e boc = retirado, provindo, oriundo. Pereira da Costa (1975, p. 12) acompanha essa interpretação dizendo que caa-boc significa “o que vem da floresta”.

Ferreira (1971) sugere que a expressão vem de kari’boka, termo tupi que quer dizer “filho do homem branco” — ou seja, do que dormiu com a mulher indígena. Grenand e Grenand (1990, p. 27), com base em escritos da segunda metade do século XVII, sugerem que o termo foi usado, primeiramente, pelos índios Tupi do litoral, que com ele designavam os seus inimigos, habitantes do interior, ou seja, da mata.

CASTRO, Fábio Fonseca de. A identidade denegada. Discutindo as representações e a autorrepresentação dos caboclos da Amazônia. 2013

Segundo Câmara Cascudo, D. José de Portugal proibiu seus vassalos de chamarem seus filhos mestiços (de pais brancos com mães indígenas) assim ou de “nome semelhante que fosse injurioso”, demonstrando desde então a conotação negativa que “caboclo” carregava.² Cascudo também diz que no século XVIII a palavra já era usada como um sinônimo oficial de indígena.

Destaco ambos para lembrar que o processo de miscigenação no que hoje é conhecido como Brasil aconteceu, primeiramente, do “encontro” de homens brancos com mulheres indígenas. Para além da violência sexual, os colonos vinham sem suas famílias e os casamentos mistos eram incentivados pela Coroa portuguesa, como forma de estabelecê-los nas terras.

A criança dessa “nova família”, por ser mestiça, “perdia” então, o direito à sua identidade indígena e passava a ser considerada cabocla.

Além de desestabilizar essas sociedades, a miscigenação era uma das ferramentas para fazer com que indígenas se “civilizassem” e se enxergassem através do olhar do colono, junto com a catequização. Começava aí o processo de tornar o caboclo uma pessoa que via a si como “intruso, indolente, traiçoeiro, alguém cujo único destino era trabalhar para o branco”.³

Com esse histórico, a literatura registrada pela branquitude coloca o caboclo como um camponês/extrativista da Amazônia, mas também “imbecil, crédulo e incapaz de ato louvável”². Isso não apenas o aliena da sua indigenidade, como justifica a subalternidade ao branco.

E esse jogo de poder com um habitante da sua própria terra fundamenta também a exploração da Amazônia. Ora, se essa “raça mestiça” é apenas “incapaz de empreender a dura tarefa de domesticar uma natureza resolutamente selvagem”⁴, cabe ao invasor ou migrante (mais tarde, na era da borracha) explorar e aproveitar tudo o que a grande floresta pode lhe oferecer.

Por fim, mais recentemente, em especial nas três últimas décadas, manifestações culturais como o boi-bumbá no Amazonas tentam injetar autoestima na população local retratando o caboclo (a “figura típica regional”) como um guardião da floresta, um exemplo de quem vive em harmonia com a mata. Um personagem que vive como indígena, mas não reclama a sua identidade.

O caboclo como “figura típica regional” — Representação do boi bumbá Caprichoso

Pardo X Caboclo

Como já mencionei anteriormente, a definição de indígenas como caboclos não foi acidental. Mas ao longo do tempo, a população cabocla se transformou e foi mesclada ao que hoje é reivindicado como pardo, e isso aconteceu por conta dos censos demográficos.

No primeiro censo oficial, em 1872, caboclos e pardos eram categorias separadas de raças brasileiras (também faziam parte: branco e preto), mas caboclo era utilizado para contabilizar a população indígena e pardo era “o que sobrava”. A inserção de caboclo no censo levava em consideração o fato de ser um termo “empregado de uso corrente e disseminado.” (OSORIO, 2003, p. 18)

No censo de 1890, pardo foi substituído por mestiço (então significando descendentes de pretos e brancos) e caboclo seguiu como classificação para indígenas e seus descendentes.

Como podemos ver no quadro abaixo, a partir do censo seguinte (de 1940), a população cabocla/indígena foi incorporada à nomenclatura parda, até 1991.

Algumas coisas chamam atenção nesse quadro, feito pelo próprio IBGE.

1) ele não leva em consideração que povos indígenas foram escravizados, mas sim “pretos e pardos”; a narrativa que convenientemente apaga a escravidão dos nativos consolida o estereótipo de preguiçosos e esconde um episódio histórico de violências.

2) a partir de 2010, para ser considerado indígena é preciso dizer a sua etnia e a língua falada, mas não-oficialmente, ainda que a pessoa dê essas informações aos órgãos oficiais, o fato de não estar em aldeia faz essa pessoa ser jogada para a população parda.

Para as burocracias, o atual pardo é também o caboclo de ontem — e ainda de hoje. E esse caboclo também pode ser o indígena que não sabe ou que teve a sua identidade roubada em mais de 500 anos de invasão.

Leia também:
A complexidade do pardo e o não-lugar indígena

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