puranga pesika

manifesto de aliança afroindígena

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O solo do que conhecemos como Brasil foi regado com sangue de populações indígenas, mas não só. Se Abya Yala foi explorada e catequizada à força, os irmãos acorrentados da África também encontraram sofrimento por aqui.

A branquitude invasora fez dois povos continentais de reféns. Nesses mais de 500 anos que se passaram, indígenas e negros foram perseguidos, instrumentalizados e despidos de sua humanidade por colonizadores, por igrejas, bandeirantes, escravocratas, senhores de engenho, de cafezais, senhores da borracha, fazendeiros, juízes, empresários, polícia.

Depois de todos esses séculos, ainda somos a base da pirâmide, ainda temos acessos precarizados — quando temos acessos — e fazem de tudo para que nos envergonhemos da nossa cara e nossas origens. Os nossos ainda morrem pelas mesmas mãos cruéis que só enxergam cifrões.

Mas nossa história vai além das tragédias.

Mais do que nossas cicatrizes, temos em comum uma ligação sagrada com a natureza, o cuidado ancestral com o coletivo, a musicalidade da nossa força, e a teimosia pela sobrevivência. Se estamos aqui, é porque nossos antecessores foram aliados contra um inimigo em comum. É porque traçaram juntos rotas de fuga e construíram quilombos.

A colonização pode ter tentado enterrar nossa memória, mas não vai extinguir nossas línguas, nem domar nosso espírito.

Juntos, ainda estamos desafiando, na cidade e no campo, as autoridades que quiseram a nossa morte e que sonharam com um país branco como a pele de nossos algozes.

Compartilhamos a raiz da mesma dor, e podemos vislumbrar um outro mundo que não esse liderado pela ganância, se aprendermos uns com os outros e respeitarmos nossas semelhanças e diferenças.

Eu te dou a mão e tu me dá a tua? Vamos trocar entre nós?

Um plano de extermínio está em curso e somos linha de frente, em busca de emancipação, desafiando as máquinas que querem nos esmagar.

Por Ajuricaba e Zumbi, pelos nossos quilombos, aldeias e periferias, pelas medicinas da floresta e pelos orixás.


Em 2004, durante a 1ª Conferência Nacional de Políticas para Mulheres (no DF), mulheres indígenas e negras estabeleceram a Aliança de Parentesco AfroIndígena, um pacto entre irmãs em torno de diretrizes comuns.


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